Rosana Valle


O País se viu, em plena Páscoa, em meio a manchetes e a imagens indiscutivelmente simbólicas: de um lado, a carne de paca, iguaria rara e cara, servida à mesa farta de quem governa o Brasil, sob o signo da Esquerda e em “defesa” da Justiça Social e do simples; na outra ponta, o vazio no prato de quem trabalha duro (isso quando tem ocupação laboral) e mal consegue alimentar a família e fechar as contas no fim do mês.

Não se trata, aqui, de figura de linguagem. Basta acessar jornais e portais para encontrar o óbvio escancarado: a desconexão entre o Brasil real, do povo, e o multiverso dos governantes.

É claro que há liturgias inerentes aos cargos, mas essas devem ser exercitadas tal qual o bom senso. A fartura na mesa de quem se diz representante dos menos favorecidos pode ser mal interpretada, afinal, deixando ainda mais evidente o abismo da desigualdade social.

Vamos aos fatos: num aspecto, temos o brasileiro no supermercado, tentando “multiplicar os pães”, mas se rendendo, sem escolhas, à subtração. O preço da carne subiu, nos últimos tempos, ao passo em que outros alimentos da cesta básica pressionam o orçamento. Logo, a substituição de itens virou rotina. Muita gente já não compra o que gostaria, ou o que precisa, mas, sim, o que cabe no bolso — isso, quando compra!

Do outro lado, a primeira-dama do Brasil, Rosângela Lula da Silva, a Janja (PT), exibe nas redes sociais um almoço de domingo pascal com paca — roedor silvestre nativo das Américas, que gera de um a dois filhotes por gestação e se reproduz, apenas, uma ou duas vezes ao ano. Essa baixa taxa reprodutiva da espécie impede sua produção em escala industrial, diferentemente do que ocorre com bovinos, suínos e aves. O crescimento lento deste animal também mantém a carne escassa no mercado. Logo, o quilo sai, em média, R$ 300.

O alto custo é resultado da combinação de pequena oferta e demanda de nicho. Com restrição na produção, esta carne se toma produto voltado a circuitos gastronômicos seletivos, incluindo, ao que vimos, a mesa do atual presidente da República.

A crítica não é sobre o prato em si. É sobre o que ele simboliza: a distância abismal entre quem decide os rumos de uma nação e quem vive, de fato, as consequências dessas decisões.

E as recentes manchetes seguem causando assombro. Vejamos: numa nação com recorde de feminicídios, informa-se que os recursos destinados ao combate à violência contra a mulher não são plenamente executados — a aplicação não chega a 15% do total autorizado.

Paradoxalmente, ao mesmo tempo, cresce o gasto com Publicidade institucional por parte da União. Então, falta dinheiro para proteger as brasileiras, mas sobra para fazer propaganda? Ao meu juízo, essa escolha fala por si.

Não são fatos isolados. O que se delineia, ao que parece, é um padrão. A régua não é a mesma para todo mundo. O peso das deliberações no Brasil varia, seguindo a expressão popular, “ao gosto do freguês”. Ou seria ao gosto dos amigos, dos parceiros, dos aliados, dos companheiros? Enquanto isso, a percepção de Justiça se desgasta.

Quando a concretude econômica não dialoga com o discurso oficial, quando o planejamento financeiro ignora prioridades evidentes e quando decisões institucionais levantam dúvidas legítimas, o problema deixa de ser ideológico — torna-se estrutural. Passa a ser uma questão de coerência.

O Brasil não precisa de mais narrativa. Precisa de conexão com a vida real. Porque, quem está na ponta não se abastece de discurso, mas, sim, de salário, de mercado, de escolhas difíceis, todos os dias. E, quando quem governa perde essa referência, o distanciamento deixa de ser simbólico — torna-se concreto.

As respostas não estão escondidas. Estão nos títulos dos jornais e dos portais, nas redes sociais e no desânimo das ruas, para quem quiser ver. E, neste momento, ligar os pontos deixou de ser escolha. É necessidade.


Rosana Valle – Deputada federal pelo PL-SP, em segundo mandato; presidente da Executiva Estadual do PL Mulher de São Paulo; jornalista por formação há mais de 25 anos; e autora dos livros “Rota do Sol 1 e 2”.

 


Destaque – Imagem: divulgação / +aloart / G.I.


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