Com quase 80% das famílias endividadas, especialistas apontam que o consumidor será mais racional, e as marcas precisarão investir em confiança, propósito e transparência.


O alto nível de endividamento das famílias brasileiras, que atingiu 78,2% em maio de 2025, segundo a Confederação Nacional do Comércio (CNC), acende um alerta sobre o comportamento de consumo no país. Em meio a esse cenário de restrição orçamentária, o crescimento econômico moderado e a inflação projetada em 4% para 2026 apontam para uma transformação no modo como o brasileiro lida com o dinheiro.

De acordo com a coordenadora do curso de Administração, Enivalda Alves da Silva Pina, da Faculdade Santa Marcelina, o consumidor brasileiro não deixará de comprar, mas passará a fazê-lo com mais cautela. “O comportamento tende a ser mais racional e seletivo. As pessoas continuarão consumindo, mas de forma mais estratégica, buscando produtos e serviços que realmente entreguem valor e façam sentido emocional e financeiro”, explica.

Nesse contexto, as famílias devem priorizar itens essenciais e buscar marcas que ofereçam boa relação entre custo e benefício. Embora o preço siga como fator importante, qualidade, confiança e identificação com os valores da marca passarão a pesar mais na decisão de compra.

Diante desse novo perfil de consumo, as empresas precisarão rever suas estratégias. A especialista destaca que as organizações terão de simplificar suas mensagens e apostar em uma comunicação direta e transparente. “O consumidor de 2026 estará cansado de promessas vazias e campanhas exageradas. Ele vai buscar autenticidade, coerência e empatia nas relações com as marcas”, afirma Enivalda.

Para conquistar a confiança do público, as empresas deverão equilibrar eficiência tecnológica com sensibilidade humana, oferecendo experiências personalizadas e fortalecendo vínculos de longo prazo. “O consumidor valorizado tende a se tornar leal. A confiança será o maior diferencial competitivo”, completa.

Mais do que vender, o foco das empresas estará em construir relações duradouras. Para medir esse sucesso, métricas tradicionais não bastarão. Indicadores como o Net Promoter Score (NPS), que mede a lealdade e a probabilidade de recomendação, e o Customer Lifetime Value (CLV), que avalia o valor de longo prazo do cliente, serão fundamentais.

Segundo Enivalda, também será essencial acompanhar as taxas de recompra, engajamento digital e percepção de confiança. “O desempenho financeiro refletirá diretamente a qualidade do relacionamento com o cliente, e não apenas o volume de transações”, reforça.


Destaque – Imagem: aloart / G. I.

 


Leia outras matérias desta editoria

Reforma Tributária: livro coordenado por Ives Gandra Martins e Marcos Cintra aponta riscos da EC 132/2023

Publicação reúne análises de 41 especialistas sobre gargalos operacionais, impactos no ambiente de negócios e perda de autonomia dos entes federativos. A Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP) sedia, no dia...

Avanço do público com mais de 50 anos reestrutura o varejo na capital paulista

Com quase um terço dos moradores no segmento sênior, a expansão demográfica transforma os hábitos de consumo e reconfigura o quadro de funcionários no comércio local. O envelhecimento populacional deixou de ser apenas uma projeção demográfica para se...

Arcabouço fiscal sob pressão: os desafios das contas públicas brasileiras

Tenho alertado sobre um dos principais problemas da campanha eleitoral do presidente Lula, que é o fato de ele realizar gastos de caráter eleitoreiro, sem nenhum controle. Trata-se, pois, do que os editoriais de todos os grandes jornais do país têm...

Fiesp alerta para riscos globais e inflação, mas prevê alta de 1,9% no PIB em 2026

Relatório Cenário Econômico aponta que estímulos do governo e mercado de trabalho sustentam a atividade interna, apesar de juros altos e tarifas dos EUA. A economia brasileira segue em trajetória de crescimento moderado, impulsionada por medidas de...

Confiança empresarial sobe em junho e atinge o maior nível desde maio de 2025

Indicador da FGV IBRE avança pelo segundo mês consecutivo impulsionado pela indústria, serviços e acomodação no cenário internacional. O ambiente de negócios no Brasil registrou uma nova melhora no encerramento do primeiro semestre. O Índice de Confiança...

Alta de golpes imobiliários em SP acende alerta e expõe importância de consulta digital de propriedades

Com mais de 50 estelionatos por hora no estado, cartórios reforçam divulgação do site oficial RI Digital para que compradores chequem dados antes de fechar negócio Os golpes envolvendo a compra, venda e locação de imóveis têm se multiplicado na capital...

São Paulo possui 3,3 milhões de lares endividados e atinge maior patamar em quatro anos

Dados da FecomercioSP mostram que 74,2% dos lares paulistanos possuem algum tipo de dívida; inflação e uso do cartão de crédito para despesas diárias pressionam orçamentos. O endividamento dos moradores da capital paulista voltou a registrar patamares...