Pesquisadores brasileiros e do Reino Unido fazem levantamento sobre a rota do coronavírus no Brasil


Segunda-feira | 30 de março, 2020 | 17h24


Conforme os dados apurados, 54,8% dos casos importados de COVID-19 para o país até 5 de março vieram da Itália.

Elton Alisson | Agência FAPESP

A Itália foi a principal origem dos primeiros viajantes infectados pelo novo coronavírus, o SARS-CoV-2, que chegaram ao Brasil entre fevereiro e o início de março deste ano – período que marca o começo da epidemia de COVID-19 no país. A constatação foi feita por pesquisadores brasileiros, em colaboração com colegas do Reino Unido, Canadá e Estados Unidos.

 

Até às 09h44 desta segunda-feira, o Centro de Pesquisas da Universidade John Hopkins, localizado em Baltimore, EUA, indicava 737.929 casos confirmados da COVID-19 em todo o mundo. O resultado apontado até esse horário era de 35.019 óbitos e 156.507 pessoas que conseguiram se recuperar.
Às 12h53 os números já mudavam para 741.030 casos confirmados, 35.114 óbitos e 156.838 recuperações.
Novamente acompanhando as informações sobre a COVID-19 no mundo às 16h11, os números eram os seguintes:
770.653 pessoas contaminadas, 36.946 óbitos e 160.130 recuperações.
Fonte: Johns Hopkins University & Medicine. Imagem: divulgação / JHU. Legenda: Alô São Paulo

 

“Ao contrário da China e de outros países, onde o surto de COVID-19 começou devagar, com um número pequeno de casos inicialmente, no Brasil mais de 300 pessoas começaram a epidemia, em sua maioria vindas da Itália. Isso resultou em uma disseminação muito rápida do vírus”, diz Ester Sabino, diretora do Instituto de Medicina Tropical (IMT) da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FM-USP) e uma das autoras do estudo.

Como o principal destino desses passageiros vindos do país europeu foi São Paulo, a capital paulista acabou registrando os primeiros casos da doença no Brasil. Mas, além da cidade, esses viajantes também seguiram para outras nove capitais brasileiras – Rio de Janeiro, Porto Alegre, Salvador, Curitiba, Belo Horizonte, Fortaleza, Recife, Vitória e Florianópolis –, deflagrando a epidemia da COVID-19 no país.

Os resultados do estudo, apoiado pela FAPESP no âmbito do Centro Conjunto Brasil – Reino Unido para Descoberta, Diagnóstico, Genômica e Epidemiologia de Arbovírus (CADDE), foram descritos em um artigo publicado no Journal of Travel Medicine.

As estimativas indicaram que 54,8% de todos os casos importados de COVID-19 para o Brasil até o dia 5 de março foram de viajantes infectados na Itália, seguidos por passageiros vindos da China (9,3%) e da França (8,3%).

A rota Itália–São Paulo representou 24,9% do total de viajantes infectados que chegaram ao Brasil durante esse período e o país europeu foi a origem de cinco das 10 principais rotas de importação da COVID-19 ao Brasil – China, França, Suíça, Coreia do Sul e Espanha –, aponta o estudo.
Identificação do caminho

Para identificar as rotas mais importantes de importação da COVID-19 para o Brasil, os pesquisadores analisaram o histórico de viagens aéreas entre fevereiro e março de 2020 de 29 países com casos confirmados da doença, que tinham como destino final alguma cidade brasileira.

Já com base no número total de passageiros que chegaram aos aeroportos no Brasil nesse período vindos desses países, além do tamanho da população e o número de casos da doença registrados nessas nações entre fevereiro e março de 2020, foi estimada a proporção de viajantes potencialmente infectados que desembarcaram nas capitais brasileiras.

As estimativas são corroboradas pelos dados oficiais de registros de casos da doença no Brasil, tabulados pelo Ministério da Saúde, que apontaram que 14 dos 29 primeiros pacientes diagnosticados com COVID-19 no Brasil tinham histórico de viagens à Itália. Desse total de casos, 6 (23,1%) foram registrados em São Paulo, ressaltam os pesquisadores.

“Era muito claro que São Paulo seria o epicentro da epidemia de COVID-19 no Brasil porque é a cidade que recebeu o maior número de infectados, vindos principalmente da Itália”, afirma Sabino.

Foco na mobilidade interna

Foco na mobilidade interna

Na avaliação da pesquisadora, que liderou o sequenciamento do genoma do coronavírus isolado dos dois primeiros casos confirmados de COVID-19 no Brasil, a fim de conter a disseminação da doença, o foco, agora, deve ser na restrição da mobilidade interna no país, uma vez que a transmissão passou a ser sustentada ou comunitária.

Uma ação importante nesse sentido seria restringir a circulação de moradores de São Paulo, onde está concentrado o maior número de casos de infecção pelo novo coronavírus, aponta Sabino.

“São Paulo e Rio de Janeiro, em menor proporção, serão os centros de distribuição do coronavírus para o Brasil. Por isso, é preciso restringir a saída de pessoas dessas localidades”, avalia.

 

Ao contrário da China e de outros países, onde o surto avançou devagar, no Brasil mais de 300 pessoas começaram a epidemia, em sua maioria vindas da Itália. Imagem: Wikimedia Commons

 

Continuidade dos sequenciamentos

O grupo de pesquisadores coordenado por Sabino continua fazendo sequenciamento de coronavírus isolados de pacientes brasileiros diagnosticados com a doença.

O trabalho, porém, teve que ser interrompido em razão da suspeita de que pesquisadores do próprio grupo também poderiam ter sido infectados pelo novo coronavírus.

“Tivemos que paralisar o laboratório e estamos retornando agora. Vamos analisar se podemos sequenciar um número maior de genomas do vírus”, diz Sabino.

A velocidade de transmissão do novo coronavírus no país também acabou atropelando o cronograma e os planos dos pesquisadores.

“A transmissão do vírus está indo tão rápido que os dados de sequenciamento não conseguem ajudar a entender como está progredindo a epidemia como planejávamos”, pondera Sabino.

A expectativa dos pesquisadores era que à medida que fossem surgindo casos esporádicos da doença iriam sequenciando para acompanhar a trajetória de transmissão, a fim de gerar estratégias de controle. Eles acabaram se deparando, contudo, com muitos casos para sequenciamento que chegaram ao laboratório ao mesmo tempo.

“Não será possível conseguir controlar o surto só com as sequências. A epidemia está progredindo muito rápido e não é possível mais seguir os casos”, diz Sabino.

Até o momento, já foram feitos quase 800 sequenciamentos de genomas de coronavírus isolados de pacientes infectados em todo o mundo.

Esse conjunto de sequenciamentos, disponibilizados em bases de dados públicas, permitirá a realização de estudos de resistência primária de antivirais promissores para combater o novo coronavírus, aponta Sabino.

“Quando surgir algum medicamento candidato, seguramente esse banco de dados de sequenciamento do genoma do vírus será útil para essa finalidade”, afirma.


O artigo Routes for COVID-19 importation in Brazil (DOI: 10.1093/jtm/taaa042), de Darlan da S Candido, Alexander Watts, Leandro Abade, Moritz UG Kraemer, Oliver G Pybus, Julio Croda, Wanderson de Oliveira, Kamran Khan, Ester C Sabino e Nuno R Faria, pode ser lido no Journal of Travel Medicine em https://academic.oup.com/jtm/advance-article/doi/10.1093/jtm/taaa042/5809508.


N. da Redação.

Em contato com a Agência Fapesp, o repórter Elton Alisson esclareceu sobre a avaliação da pesquisadora Ester Sabino quanto a restrições de mobilidade (ver tópico Foco na mobilidade interna mais acima nesta postagem) interna no país a fim de controlar o avanço da pandemia, notoriamente em São Paulo e no Rio de Janeiro. Leia a seguir:

Alô Tatuapé:  Como deveriam agir essas populações na opinião da pesquisadora? As populações desses estados não deveriam mais sair de casa de forma geral? Não ser permitido que viajassem? Fechar as fronteiras desses estados?

Elton Alisson / Agência Fapesp: Em relação a sua dúvida, a pesquisadora se refere a restringir a circulação de moradores de São Paulo e do Rio de Janeiro para outros estados, uma vez que concentram o maior número de casos da doença. Ela se refere a longos deslocamentos.

 

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