Rosana Valle — Deputada federal pelo PL-SP, em segundo mandato; presidente da Executiva Estadual do PL Mulher de São Paulo; jornalista por formação há mais de 25 anos; e autora dos livros “Rota do Sol 1 e 2”.


O Brasil já viu esse filme antes: um grande caso, cifras bilionárias, impacto direto no sistema financeiro e a promessa de que, desta vez, tudo será apurado e os responsáveis punidos com o rigor da lei. No começo, expectativa. Depois, decisões estranhas. No fim, processos questionados, provas fragilizadas e aquela sensação amarga de que a verdade ficou pelo meio do caminho. E não é que a história parece se repetir, agora, com o Banco Master?


A investigação envolvendo a instituição financeira, com liquidação extrajudicial decretada pelo Banco Central do Brasil, começa a acender tal alerta.

O escândalo, um dos mais emblemáticos dos últimos tempos, ganhou novos contornos com a divulgação de nota pública, no sábado (17/1), pela Associação Nacional dos Delegados da Polícia Federal (ADPF), com direito a severas críticas à atuação do Supremo Tribunal Federal (STF) nos inquéritos relacionados à empresa de Daniel Vorcaro.

A entidade diz acompanhar com elevada preocupação a condução das investigações e descreve um cenário que classifica como atípico. A nota fala, ainda, em interferências no planejamento investigativo, prazos incompatíveis com a complexidade do caso, determinações sobre diligências específicas, lacração e envio de materiais apreendidos a outros órgãos e até em escolha nominal de peritos.

Para quem não vive o dia a dia do sistema de Justiça, vale explicar o funcionamento. Investigação criminal exige método, técnica, sequência lógica e cadeia de custódia — incumbências da Polícia Federal (PF). Ao Ministério Público (MP), cabe a tarefa de acusar. Já o Judiciário tem a missão de julgar. Essa divisão de atribuições é que protege processos de abusos e evita que tudo seja anulado lá na frente — como já vimos por um sem-número de vezes na história recente do Brasil.

O debate sobre a separação desses papéis rompeu a lógica de que qualquer crítica ao STF partiria apenas de um campo político. Isto, porque setores da Esquerda, do mercado financeiro e até a grande Imprensa, historicamente cautelosos, passaram a expressar desconforto com a expansão de poderes e de interferências que extrapolam o papel constitucional do Judiciário no Brasil.

Analiso isso com o olhar de quem passou décadas no Jornalismo e aprendeu que silêncio também é uma escolha. Chama a atenção como um tema dessa gravidade foi tratado, por tanto tempo, de forma lateral. Talvez, por ser técnico, por não render manchetes, ou por mexer com estruturas que muitos preferiram não questionar. Mas Democracia não combina com mudez seletiva.

Questionar excessos, afinal, não é atacar o Judiciário. Defender limites não é enfraquecer o combate à corrupção no País. Ao contrário: investigações fortes só geram resultados duradouros quando respeitam diretrizes, papéis e regra de competência.

O Brasil não precisa de investigações espetaculares que terminam anuladas, mas, sim, de processos sólidos, com técnica, equilíbrio e respeito à legislação vigente, capazes de resistir ao tempo e ao escrutínio público.

Quando até delegados da PF sentem a necessidade de alertar, publicamente, que algo está fora do lugar, o mínimo que se espera é atenção, debate e correção de rumo.

Democracia, por fim, não é poder sem limite. É autoridade com responsabilidade. Ignorar isso, hoje, é preparar o País para a frustração de amanhã e para mais um capítulo da famigerada certeza da impunidade.


Destaque – Imagem: Polícia Federal / Divulgação


Leia outras matérias desta editoria

PL da Misoginia: quando o ódio às mulheres deixa de ser opinião e se torna crime

A recente decisão da Câmara dos Deputados, em Brasília-DF, de submeter o Projeto de Lei (PL) da Misoginia (896/2023) a regime de urgência, reconfigura, em termos simbólicos e normativos, o lugar da violência de gênero no Direito Penal brasileiro. Ao...

Quando o golpe usa o próprio sistema de Justiça

Fraude que se vale de dados reais expõe falhas institucionais e exige resposta conjunta de tribunais, bancos, plataformas e advocacia. Um golpe silencioso, sofisticado e cada vez mais frequente vem se espalhando pelo país: o golpe do falso advogado....

Copa do Mundo: a camisa da Seleção pesou menos do que deveria

O futebol sempre foi muito mais do que um esporte para o Brasil. Durante décadas, vestir a camisa da Seleção significou representar a história de um povo, carregar a esperança de milhões de brasileiros e defender um símbolo que ultrapassava os 90 minutos...

Caso Mariana Ferrer: quando o sistema que deveria ser escudo se comporta como espada

Destinada ao Brasil e tornada pública no último dia 3, a allegation letter (Carta Formal de Alegação) elaborada pelo Alto Comissariado dos Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre possíveis violações processuais no caso Mariana Ferrer...

A burocracia como vantagem estratégica

Apesar do grande volume de recursos públicos disponíveis para empresas no Brasil — apenas em 2024, o sistema de fomento brasileiro disponibilizou quase R$ 1,3 trilhão para financiar o setor produtivo — a burocracia continua sendo um dos principais entraves...

Doenças raras: a lentidão do sistema X a urgência em transformar política pública em lei

A Organização Mundial de Saúde (OMS) estima que existem 15 milhões de brasileiros que convivem com algum tipo de doença. O número, altamente expressivo, foi divulgado durante o 11º Cenário das Doenças Raras no Brasil, promovido pela Casa Hunter, em 8/6, em...

Solidariedade para aquecer o inverno

O “1º Censo Nacional da População em Situação de Rua”, realizado neste ano pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), com levantamento feito a partir de dados do Cadastro Único (CadÚNico), sistema do Governo Federal que identifica e...