Declaração do presidente na premiação da OBMEP divide opiniões e resgata o histórico de metáforas presidenciais que geram polêmica na opinião pública.
O peso das palavras ditas por um chefe de Estado costuma ecoar muito além do momento do discurso. Recentemente, durante a Cerimônia de Premiação da 20ª Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (OBMEP), a fala do presidente Luiz Inácio Lula da Silva dominou as discussões: “o político honesto que vocês querem está dentro de vocês, não está dentro de mim”.
A repercussão, que dividiu opiniões e gerou críticas, trouxe à memória de muitos analistas e cidadãos as célebres expressões de Dilma Rousseff que viraram debate na década passada, como a de “estocar o vento”.
Em 2015, na ONU, Dilma usou o termo para ilustrar, de forma metafórica, o desafio técnico de armazenar a energia gerada por fontes eólicas diante de sua intermitência natural. Embora ridicularizada na época, o avanço da transição energética nos anos seguintes validou o conceito técnico por trás da fala, transformando os sistemas de baterias em larga escala (BESS) em uma realidade vital para as redes elétricas globais. No caso de Lula, a linha entre a tentativa de criar uma metáfora de incentivo e o deslize retórico diante de uma plateia de estudantes também se mostrou tênue.
O cenário e o diálogo com os medalhistas
O evento tinha como foco central o mérito de estudantes da rede pública. No início de sua fala, Lula declarou que “gostaria de entrar na cabeça de cada um dos alunos” e iniciou uma enquete descontraída com a plateia, questionando o que as mães deles diziam sobre a importância da educação e se aquela era a primeira ou a segunda medalha conquistada na competição.
Após conversar com os rapazes, o presidente direcionou a palavra às meninas, buscando entender a relação delas com as ciências exatas e suas expectativas para o futuro. As enquetes do presidente foram direcionadas a um publico na faixa de 11, 12 e 14 anos.
“Vocês estão realizando um sonho meu, de um senhor de 80 anos que acredita que somente a educação fará vocês realizarem seus sonhos e de seus pais”, afirmou o mandatário, buscando estabelecer um vínculo emocional com o público jovem.
Fazendo a cabeça da criançada
Gradualmente, o discurso tomou um rumo mais político, resgatando a tradicional retórica de divisão entre o ensino público e o privado. Lula comparou o cenário atual com o passado, argumentando que antigamente “só os mais ricos tinham condições de disputar vagas nas universidades”. O presidente exaltou o crescimento das olimpíadas científicas, afirmando que o modelo poderia colocar o ensino brasileiro em patamar igual ou superior ao de outras nações.
Ao tentar traçar um panorama histórico da educação na América Latina, o presidente comparou o Brasil à República Dominicana no que diz respeito à fundação do ensino superior. De fato, a Universidade de São Domingos foi criada em 1538, apenas 46 anos após a chegada de Cristóvão Colombo à América. Em contraste, o Brasil colônia passou séculos sem universidades de grande porte, e as primeiras faculdades isoladas só surgiram após a chegada da Família Real, em 1808 — uma diferença histórica real de quase 400 anos que o presidente utilizou para justificar o atraso estrutural do país.
“Eu quero que todos vocês tenham a oportunidade de virar doutores”, emendou o mandatário, que relembrou sua trajetória pessoal. Nascido em Garanhuns, no agreste de Pernambuco, Lula mencionou que sobreviveu à realidade de uma região onde, na época de sua infância, a mortalidade infantil por desnutrição ceifava vidas antes dos cinco anos, destacando que só comeu “pão pela primeira vez com 7 anos”.
Estatísticas contemporâneas apontam que, embora o Brasil tenha registrado quedas drásticas nos índices de mortalidade e desnutrição nas últimas décadas, a insegurança alimentar grave e a desnutrição infantil crônica infelizmente ainda persistem como fantasmas em bolsões de pobreza extrema no país, desafiando sucessivas gestões governamentais.
O fantasma de Dilma nas ideias governamentais
Usando sua própria biografia como exemplo de superação, o presidente tentou injetar ânimo nos medalhistas: “Não tenho diploma universitário e sou o único brasileiro com três mandatos de Presidente da República, você tem que dizer: se aquele nordestino venceu, todos vocês podem ser o que quiserem. Levantem a cabeça que todos vocês podem vencer. O que vocês não podem é desanimar”.
Foi na sequência, ao abordar o descontentamento popular com a classe política, que o presidente proferiu a declaração mais polêmica do evento.
“Ah, mas tem hora que vocês tão raivoso com a política. Ah porque eu vejo na televisão que todo político é ladrão, todo político rouba, esse país não tem jeito. Quando vocês verem na televisão e chegarem à conclusão que todo político é ladrão, ainda assim não desanimem. Entrem vocês na política, por que o político honesto que vocês querem está dentro de vocês, não está dentro de mim, não está dentro de dele”, discursou, apontando para um assessor ao seu lado.
Lula completou o raciocínio afirmando que “o político que vocês sonham possivelmente sejam vocês”, conclamando os jovens a não desistirem de lutar pelo país.
Críticos da declaração apontaram que o presidente poderia ter calibrado melhor o discurso, considerando que a plateia era composta majoritariamente por crianças e adolescentes em formação. De qualquer forma, para além das disputas retóricas e da politização do palco, o sucesso da Olimpíada de Matemática permanece como um mérito técnico das escolas, dos professores e do esforço dos próprios estudantes premiados.
Destaque – Cerimônia de Premiação da 20ª Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (OBMEP). Fotos: Bruna Araújo/MEC.



