Paulo Serra


Os indicadores econômicos recentes do Brasil, à primeira vista, sugerem um cenário que, em outros momentos da história, seria suficiente para impulsionar a popularidade de qualquer governo. Aumento da renda disponível com medidas como a ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda (IR), níveis próximos ao pleno emprego e algum dinamismo no consumo formariam, no passado, a base de sustentação de aprovação política consistente.

No entanto, não é isso que estamos vendo com o atual presidente de nosso País, Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Mesmo diante de tais métricas, a popularidade do petista não aumenta. Isso revela algo mais profundo: não se trata apenas de comunicação, de narrativa ou de conjuntura. Trata-se do esgotamento de um modelo econômico. São claros, aliás, os sinais de fadiga.

O que ocorre é compreensível. Não há, para o cidadão, percepção de melhora efetiva na qualidade de vida. O aumento da renda veio com alta ainda maior do endividamento das famílias. O crédito, que antes impulsionava o consumo, hoje sufoca o orçamento doméstico.

As taxas de juros praticadas no Brasil, especialmente no cartão de crédito e no cheque especial, em muitos casos, ultrapassam 400% ao ano: patamares absurdos, completamente divorciados da realidade inflacionária, e que penalizam, sobretudo, a população de menor renda. Trata-se de um sistema que aprisiona o brasileiro, corroendo qualquer ganho real obtido com políticas de transferência de renda ou alívio tributário.

Ao mesmo tempo, o País permanece preso a uma armadilha macroeconômica. Um Estado que gasta muito pressiona a dívida pública, que, por sua vez, exige juros elevados para financiamento. Juros altos desestimulam o investimento produtivo e encarecem o crédito. Resultado: crescimento artificial, sustentado no consumo de curto prazo, mas sem base sólida em produtividade, em investimento e em aumento real da capacidade econômica nacional. E o povo, não se engane, percebe isso no dia a dia.

É por isso que medidas que antes geravam popularidade, hoje já não têm o mesmo efeito. De uns tempos para cá, mesmo trabalhando, e muito, ao passo em que faz malabarismos com o orçamento e hora extra, o cidadão comum sente que não avança. A renda entra e sai rapidamente, enquanto o custo de vida segue alto.

Diante de tal cenário, torna-se evidente a necessidade de uma mudança de direção em nossa nação. Insisto em dizer que o Brasil precisa retomar uma agenda baseada em responsabilidade fiscal, em eficiência do gasto público e em modernização do Estado. Reduzir o tamanho da máquina pública, melhorar a qualidade do gasto, simplificar o sistema tributário e criar condições para a queda estrutural da taxa de juros são primordiais.

A queda de popularidade de Lula é um sinal claro de que a sociedade já percebeu que o modelo atual não entrega mais o que prometia, e que a polarização política radicalizada é improdutiva para o Brasil. E, talvez, a principal lição seja essa: sem responsabilidade fiscal, sem reformas estruturais, sem projeto de País e sem compromisso com eficiência, não há política pública que se sustente no tempo; nem prestígio eleitoral que resista à realidade.


Paulo Serra – Especialista em Gestão Governamental e em Políticas Públicas, pela Escola Paulista de Direito; e em Financiamento de Infraestrutura, Regulação e Gestão de Parcerias Público-Privadas (PPPs), pela Universidade de Harvard (Estados Unidos); cursou Economia, na Universidade de São Paulo (USP); é graduado em Direito, pela Faculdade de Direito de São Bernardo do Campo-SP; professor universitário no curso de Direito, também é 1º vice-presidente da Executiva Nacional do PSDB e presidente do Diretório Estadual do PSDB de São Paulo; foi prefeito de Santo André-SP de 2017 a 2024.

 


Destaque – Imagem: divulgação / +aloart / G.I.


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