Os dados não deixam dúvidas: os professores estão doentes e submetidos a todo tipo de violência. Em 2025, por exemplo, o estado de São Paulo registrou a média de 95 afastamentos diários de docentes por problemas relacionados à saúde mental, segundo o Centro do Professorado Paulista. Pesquisa recente do Centro de Estatística Aplicada do Instituto de Matemática da USP, em conjunto com o Sindicato dos Professores e Funcionários Municipais de São Paulo, apontou que 63,5% dos educadores da rede municipal afastaram-se por problemas de saúde ao longo de doze meses, enquanto 84% declararam sofrer algum tipo de transtorno mental. Nacionalmente, a pesquisa “Saúde Mental dos Educadores 2022”, realizada pela Nova Escola, em parceria com o Instituto Ame Sua Mente, demonstrou que 21,5% dos educadores consideram a sua saúde mental “ruim” ou “muito ruim”.

Além disso, as escolas brasileiras são notoriamente violentas e inseguras. Nesse sentido, a mesma pesquisa da USP constatou que 62,5% dos professores entrevistados relataram ter sido vítimas de algum tipo de violência em seu ambiente de trabalho. De acordo com a FAPESP, os casos de violência escolar triplicaram em dez anos no país. Outrossim, de acordo com o 4º boletim técnico “Escola que Protege” (MEC/MDHC), entre 2001 e 2025, foram identificados 47 ataques de violência extrema, com 177 vítimas – 56 fatais e 121 feridas.

O caminho para se chegar a esse estado de coisas foi construído ao longo de décadas, especialmente por políticos oportunistas, acadêmicos fanatizados e burocratas sedentos de cargos. Primeiro, providenciou-se a completa precarização das escolas e da carreira docente, materializada por prédios caindo aos pedaços, falta de material básico, diminuição progressiva da equipe de funcionários, baixos salários, etc.

Paralelamente, ideais antiensino e anti-intelectuais espalharam-se pelos cursos de formação e começaram a guiar as políticas públicas, atacando a importância dos conhecimentos escolares – base do desenvolvimento de qualquer tipo de competência –, da memorização, do ensino explícito e dos métodos comprovadamente eficazes de alfabetização, trocando-os por uma barafunda de ideias pseudocientíficas e desastrosas, consubstanciadas na BNCC e na Reforma do Ensino Médio.

A cada resultado educacional ruim, a burocracia estatal respondia com mais controle, mais papelada, mais sobrecarga e, nos últimos anos, mais ameaças e punições. Por outro lado, anulou-se a autoridade do professor, desacreditado diante das famílias e dos próprios alunos.

Não bastava, porém, depredar a educação; era preciso encontrar um culpado para tamanho fracasso. O bode expiatório, é claro, foi o professor, tachado de despreparado, ineficiente, retrógrado, preguiçoso, elitista, tirânico e doutrinador. Assim, mesmo sem condições mínimas de trabalho e segurança, ele passou a ser tratado como a “Geni” do setor escolar, um rematado incompetente, mas que, paradoxalmente, recebe cada vez mais as incumbências negligenciadas pelo restante da sociedade. Como é bom, para os poderosos e omissos, culpar a vítima.

A educação brasileira está na lona e o apagão docente já se anuncia no horizonte. Para reverter essa trajetória, será preciso devolver racionalidade ao sistema educacional, pautando as reformas pelas evidências científicas e experiências bem-sucedidas, além de aprimorar o investimento, repensar maneiras de lidar com a violência dentro das escolas e devolver o comando das salas de aula a quem de direito: o professor. Do contrário, a docência continuará sendo sinônimo de adoecimento, e toda a sociedade brasileira continuará padecendo da enfermidade do analfabetismo e da ignorância.


Arthur V. F. Furtado – Professor, coordenador pedagógico, doutor em Educação Escolar e autor do livro “Queimem todos os professores”.


Destaque – Imagem: Divulgação / +aloart / G.I.


Leia outras matérias desta editoria

Por que os adolescentes precisam conhecer a Amazônia?

Na década de 1970, um anúncio de carro, veiculado na TV, retratava um pequeno automóvel percorrendo um trecho da BR 230, uma cicatriz aberta no meio da floresta pela rodovia Transamazônica. Em outra cena, enormes tratores de esteira derrubavam árvores...

Feminicídio cometido por militar: hierarquia, farda e disciplina não devem legitimar barbárie em ambiente doméstico

A recente decisão do Superior Tribunal de Justiça (STJ) ao dirimir conflito de competência envolvendo um tenente-coronel acusado de feminicídio contra sua esposa — também militar — expõe, com crueza, uma fratura normativa que o Direito brasileiro insiste...

Docência: uma profissão enferma e inviabilizada

Os dados não deixam dúvidas: os professores estão doentes e submetidos a todo tipo de violência. Em 2025, por exemplo, o estado de São Paulo registrou a média de 95 afastamentos diários de docentes por problemas relacionados à saúde mental, segundo o...

Diversidade sexual e de gênero: a discriminação no trabalho tem consequência jurídica

No dia 28 de junho celebra-se o Dia Internacional do Orgulho LGBTQIAPN+, data que remete aos protestos de Stonewall, ocorridos em 1969, nos Estados Unidos, considerado um marco histórico na luta por direitos civis e combate à discriminação. No Brasil,...

A falência da Justiça no caso Henry Borel: impunidade que premia a omissão na tortura e na morte de uma criança

A decisão que desclassificou a conduta de Monique Medeiros no caso Henry Borel, culminando em “perdão judicial”, não é apenas desfecho legal questionável; é um golpe na credibilidade do sistema penal brasileiro - um verdadeiro tapa na cara da sociedade....

Sem eufemismo: PCC e CV serão enfim chamados pelo que de fato são

A decisão dos Estados Unidos de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas provocou reações previsíveis. Houve quem comemorasse, quem criticasse e quem tentasse reduzir a medida à polarização...

A cidade que expulsa seus idosos expulsa a si mesma

A cidade de São Paulo volta a revelar suas entranhas. Toda vez que um grupo de moradores decide quem pode, e quem não pode, existir no quarteirão ao lado, os preconceitos mais intestinos à sociedade aparecem. A pressão de moradores da Lapa para expulsar...