William Barbosa Sales


A confirmação recente de casos de Doença de Haff no Amazonas pode parecer um problema distante da realidade do Sul do país, por exemplo, mas seria um erro tratá‑la como uma curiosidade regional. A chamada “doença da urina escura”, associada ao consumo de pescado, é um alerta silencioso sobre falhas na segurança alimentar, na vigilância sanitária e na integração entre saúde humana e meio ambiente — temas que dizem respeito a todo o Brasil.

A Doença de Haff é uma forma rara de rabdomiólise, caracterizada pela destruição aguda do músculo esquelético. Os sintomas surgem, em geral, até 24 horas após o consumo de peixe ou crustáceos, mesmo quando preparados de forma adequada, como fritos ou assados. Dor muscular intensa, rigidez, fraqueza e urina escura são os sinais mais comuns. Não se trata de infecção, não há transmissão entre pessoas e o consumo de peixe, por si só, não deve ser encarado como vilão. O que se investiga é a presença de uma toxina termoestável, ainda não identificada, capaz de resistir ao calor do preparo.

Do ponto de vista clínico, a Doença de Haff expõe um problema recorrente no sistema de saúde: o atraso no reconhecimento. A chave diagnóstica está em associar dor muscular intensa à ingestão recente de pescado e confirmar a elevação da creatinofosfoquinase (CPK), enzima que indica lesão muscular. O tratamento é simples, mas depende de tempo: hidratação venosa precoce e vigorosa, monitoramento da função renal e notificação imediata do caso. Quando isso ocorre, o prognóstico costuma ser favorável. Quando não ocorre, o risco de insuficiência renal aumenta significativamente.

No entanto, concentrar o debate apenas no hospital é enxergar apenas metade do problema. A Doença de Haff escancara a importância da cadeia do alimento, especialmente no que diz respeito à origem, conservação e fiscalização do pescado. A legislação brasileira é clara ao determinar que peixe fresco deve ser mantido sob gelo, próximo a 0 °C. Quando o peixe estiver descongelado não pode ultrapassar 4 °C durante o processo. E o peixe congelado deve permanecer em temperaturas negativas estáveis. Essas regras existem para proteger o consumidor, mas nem sempre são cumpridas, sobretudo em mercados informais e cadeias ilegais.

Para estados como o Paraná — grande produtor, distribuidor e consumidor de pescado — o alerta é direto: segurança alimentar começa antes da cozinha. Comprar peixe em locais licenciados, exigir procedência, observar refrigeração adequada e desconfiar de sinais de deterioração não é preciosismo, é saúde pública. Da mesma forma, fiscalizar o comércio irregular não significa atacar o consumo de peixe ou o pequeno produtor, mas proteger quem faz certo e reduzir riscos evitáveis à população.

Há também uma dimensão ambiental que não pode ser ignorada. A recorrência da Doença de Haff em determinadas regiões sugere relação com fatores ecológicos, como qualidade da água, alterações climáticas e desequilíbrios ambientais. É por isso que o conceito de Saúde Única — que integra saúde humana, animal e ambiental — deixa de ser discurso acadêmico e se torna necessidade prática!

A Doença de Haff não pede pânico, nem silêncio. Pede coordenação, informação qualificada e responsabilidade pública. Casos isolados devem servir como lição permanente: fortalecer a vigilância, capacitar profissionais de saúde, garantir fiscalização sanitária e comunicar riscos sem alarmismo. Afinal, quando a falha começa no prato e termina no hospital, o problema já passou da hora de ser tratado como coletivo.


Willian Barbosa Sales – Biólogo, Doutor em Saúde e Meio Ambiente e Coordenador dos cursos de Pós-graduação área da saúde do Centro Universitário Internacional UNINTER.

 


Destaque – Imagem: Divulgação / aloart / G.I.


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