Flavia de Assis e Souza – Engenheira e pós-graduada em Qualidade e Produtividade (USP), Marketing (ESPM) e Comércio Exterior (FGV), além de autora do livro “Quatorze: Gerações Conectadas”, que aborda o equilíbrio entre progresso e simplicidade.


Há uma dicotomia que muitas vezes passa despercebida. O interior representa a potência e o resultado. O envoltório, por sua vez, exibe e protege essa potência. É assim entre o alimento e sua embalagem, entre os componentes internos de um eletrônico e o seu chassi, entre as estruturas internas de um animal e seu esqueleto. O interior é força, mas, sem o envoltório adequado, o alimento estraga, o eletrônico se oxida, o animal sucumbe. Cuidar apenas do potencial é expô-lo à vulnerabilidade.


O progresso humano também segue essa configuração simbiótica. Mentes brilhantes, currículos destacados, rotinas disciplinadas são indicadores de crescimento exponencial. Porém, o que envolve o indivíduo, como equilíbrio, pausa e moderação, são igualmente necessários. A negligência dessas demandas silenciosas catalisa fragilidades diante dos grandes desafios contemporâneos: mudanças climáticas e saúde mental.

A inteligência artificial reflete essa mesma lei da interdependência. Seu poder de cálculo e geração é imenso, mas, sem propósito ético e regulatório, pode se tornar uma força descontrolada. Modelos generativos podem criar mundos virtuais fascinantes, mas também desinformação em escala. Algoritmos de recomendação podem impulsionar negócios, mas também fragilizar a saúde mental. O potencial da IA é o interior, enquanto o propósito, apoiado pela ética e pela governança, representa o envoltório que o protege e direciona.

Temas-chave para o debate são a responsabilidade algorítmica (garantir que decisões automatizadas sejam auditáveis e justas), governança de IA (estruturas regulatórias que modulam riscos e benefícios), IA explicável (transparência nos processos de decisão), reconhecimento dos vieses (bias) e assumir responsabilidade (accountability).

Sendo a inteligência artificial um novo elemento dos ecossistemas habitados pelo homem, a máxima do naturalista britânico do século XIX, Charles Darwin, permanece atual: “Não é o mais forte das espécies que sobrevive, nem o mais inteligente, mas o que melhor se adapta às mudanças.” Adaptar-se, neste caso, significa equilibrar potência e envoltório, resultado e propósito.

O que está dentro é potente e merece se expandir. Mas não a qualquer custo, nem sem moduladores que mantenham o equilíbrio. O discernimento do limite da carcaça destrava a potência. Vale para a inteligência artificial, vale para o indivíduo, vale para o mundo. Equilibrar força e envoltório é o segredo para transformar avanço em permanência.


Destaque – Imagem: aloart / G. I.


Leia outras matérias desta editoria

A luta no gel do STF

Ao longo dos meus 96 anos, vivenciei alguns dos piores momentos da história brasileira. Dos autoritarismos da ditadura militar aos maiores escândalos de corrupção da Nova República, estive na linha de frente de todos esses episódios, lutando por um país...

A grande crise brasileira

Ao longo dos meus 96 anos, vivenciei alguns dos piores momentos da história brasileira. Dos autoritarismos da ditadura militar aos maiores escândalos de corrupção da Nova República, estive na linha de frente de todos esses episódios, lutando por um país...

Mandato de 12 anos para ministros do STF

A OAB de São Paulo, o Instituto dos Advogados de São Paulo e a Associação dos Advogados — três entidades representativas da advocacia paulista — têm apontado que a perda de credibilidade do Supremo Tribunal Federal decorre do fato de a Corte ter deixado de...

Nove minutos em Copacabana e a conta que nenhum candidato apresenta

Quatro homens executaram uma sentença de morte na calçada por suspeita de furto de bicicleta, e nenhum deles era policial. Enquanto os presidenciáveis prometem prisão perpétua e importam o rigor de outros países, ninguém explica quem paga a conta nem por...

Redes sociais explicam, em números, o poder do Caso Master em impulsionar crises políticas

Há algumas semanas, abordei em um levantamento o período de mais de um mês que torcida do Corinthians levou para produzir cerca de 43 mil menções à hashtag #FicaMemphis, nas redes sociais, e forçar o clube a reabrir uma negociação que já era tratada como...

Split payment deve ficar para 2028, mas o impacto no caixa começa agora

A previsão de que o split payment se torne obrigatório apenas em 2028 foi recebida por parte do mercado como um alívio. Eu faço uma leitura diferente: as empresas ganharam mais tempo para se preparar, mas isso não significa que possam adiar a preparação. A...

Brasil medieval

Esta não é uma história de ficção; é baseada em fatos reais. A temida Inquisição (séc. XII e XIII) da Idade Média queimava pessoas vivas. Quando não havia provas para condená-las, alegava-se bruxaria ou curandeirismo. A partir do séc. XV, já na Idade...