Regina Campanelli – Delegada de Polícia, titular da Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) de Arujá-SP e da Delegacia de Área de Santa Isabel-SP; pós-graduada em Direito Processual Civil Público; especialista em Direito Penal, Processo Penal, Escuta Especializada de Crianças e Adolescentes, e no Atendimento a Mulheres Vítimas de Violência Doméstica. Fundadora do movimento “Elas por Elas”, e autora da obra jurídica “Elas no Direito”.


Os dados mais recentes sobre feminicídios somente na cidade de São Paulo-SP, com 53 casos registrados de janeiro a outubro deste ano, um triste recorde histórico, tornaram público aquilo que, para quem atua diariamente na proteção às mulheres, como é o meu caso, já era perceptível: a violência de gênero se intensificou de forma alarmante.

À frente da Delegacia de Polícia de Defesa da Mulher (DDM) de Arujá-SP, constato que este tipo de crime raramente começa com o que chega ao noticiário. Há um padrão conhecido e estudado que abarca ciclos de controle emocional e psicológico, ciúme legitimado como cuidado, humilhações que reduzem a autoestima, e agressões, que, com o tempo, se tornam mais frequentes e mais perigosas.

O feminicídio, neste contexto, não surge como evento inesperado, mas, sim, como o fim trágico de uma escalada que poderia ter sido interrompida desde as primeiras violações.

O caso da mulher que teve as pernas amputadas por ter sido arrastada pelo carro do ex-namorado, na Marginal Tietê, na Vila Maria, Zona Norte de São Paulo, ilustra a dimensão extrema a que a agressão e o ódio contra o público feminino pode chegar quando não há ruptura do ciclo.

Outro episódio ocorreu dentro de uma pastelaria, no Jardim Fontalis, também na Zona Norte da capital paulista, há poucos dias. Ao chegar no estabelecimento, um homem desferiu seis tiros à queima-roupa na namorada, diante de diversas testemunhas. A escolha de um local público por parte do agressor para o cometimento do delito revela o sentimento de domínio absoluto sobre a vítima e a naturalização da violência, que deixa de ser escondida, velada, e passa a ser exibida como demonstração de machismo e de poder.

Estes casos, embora chocantes, seguem elementos comuns de violência coercitiva: isolamento, manipulação emocional, dependência afetiva, ameaça constante, vigilância e a banalização do sofrimento da mulher.

O papel das DDMs se torna central para garantir atendimento qualificado, acolhimento adequado e apuração rigorosa. Em Arujá, investimos na análise rápida das medidas protetivas, na coleta efetiva de provas digitais e no diálogo constante com os demais serviços da rede de apoio, ampliando a capacidade de prevenção.

Entretanto, nenhuma instituição sozinha é capaz de enfrentar um problema social e estrutural desta monta. O combate à violência contra a mulher requer políticas públicas permanentes, campanhas educativas, conscientização comunitária e formação continuada de profissionais de todas as áreas que a rede de proteção abarca. E, não menos importante: é essencial que a sociedade reconheça que violência doméstica não é assunto privado – é violação de direitos e demanda, desta maneira, que depende de resposta coletiva.

Como profissional de Segurança Pública, reafirmo que, cada denúncia é uma oportunidade de interromper um ciclo, de proteger uma vida e de mostrar que qualquer tipo de agressão não pode ser tolerado. O feminicídio não é inevitável, mas é passível de prevenção. E preveni-lo é responsabilidade de todos nós — Estado e sociedade — com firmeza, consciência e compromisso permanente.


Leia outras matérias desta editoria

A falência da Justiça no caso Henry Borel: impunidade que premia a omissão na tortura e na morte de uma criança

A decisão que desclassificou a conduta de Monique Medeiros no caso Henry Borel, culminando em “perdão judicial”, não é apenas desfecho legal questionável; é um golpe na credibilidade do sistema penal brasileiro - um verdadeiro tapa na cara da sociedade....

Sem eufemismo: PCC e CV serão enfim chamados pelo que de fato são

A decisão dos Estados Unidos de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas provocou reações previsíveis. Houve quem comemorasse, quem criticasse e quem tentasse reduzir a medida à polarização...

A cidade que expulsa seus idosos expulsa a si mesma

A cidade de São Paulo volta a revelar suas entranhas. Toda vez que um grupo de moradores decide quem pode, e quem não pode, existir no quarteirão ao lado, os preconceitos mais intestinos à sociedade aparecem. A pressão de moradores da Lapa para expulsar...

A força do voto para escolher em quem podemos confiar para cuidar do que é de todos nós

Vivemos um tempo em que a informação cabe na palma da mão. Em poucos segundos, qualquer cidadão acessa dados que antes exigiam horas de pesquisa: histórico político, processos judiciais, votações no Congresso Nacional, declarações públicas, patrimônio e...

PEC 6×1: proteção ao trabalhador, sem abrir mão do desenvolvimento

Aprovada pela Câmara dos Deputados, em Brasília, no final de maio, a Proposta de Emenda à Constituição (PEC 221/19) que acaba com a jornada de trabalho 6x1 no país, agora aguarda por um parecer do Senado Federal. Caso avance e até que seja sancionada pelo...

Uma cidade cada vez mais tecnológica e inteligente

A capital paulista, em meio ao seu rico patrimônio histórico, arquitetônico e urbanístico, também se destaca como avançado hub de tecnologia. Para traduzir isso em dados concretos, realizamos, na São Paulo Negócios, o inédito estudo "Avança Tech /...

Feminicídio em alta e a urgência de leis mais duras e efetivas contra agressores

O governador Tarcísio Gomes de Freitas (Republicanos) anunciou a instalação de 69 Salas DDM (Delegacias de Defesa da Mulher), dentro dos próximos meses, no estado de São Paulo. Deste total, 60 unidades vão funcionar em cidades do interior, incluindo...