Em julho de 1924, revolta abalava o cotidiano de São Paulo


Sábado | 10 de agosto, 2019 | 18h50


A Revolução de 1924 também é conhecida como “a revolução esquecida”, mas para quem viveu nessa época a artilharia e os conflitos armados transtornavam a vida da população de São Paulo.

De 5 a 28 de julho de 1924, há 95 anos, a cidade de São Paulo foi palco de um conflito bélico sem precedentes. Para contar um pouco da história da Revolução de 1924, que também provocou a interrupção da distribuição de energia e a circulação de bondes elétricos na cidade. Leia o artigo a seguir e conheça um pouco mais sobre “a revolução esquecida”.

 

Transeuntes perto de poste atingido por balas de fuzil, em 1924. Foto: Foto: Acervo FES

 

A REVOLTA DE 1924 E O ACERVO DA FUNDAÇÃO ENERGIA E SANEAMENTO

Danieli Giovanini*

Um acervo tão rico como o da Fundação Energia e Saneamento traz em si não apenas a história do setor energético, mas também momentos de São Paulo pouco lembrados. Um exemplo é a Revolta Paulista de 1924, uma das batalhas mais violentas que a cidade já testemunhou.

Com forte influência tenentista - os rebeldes eram, em sua maioria, tenentes e capitães do Exército -, ocorreu em um momento de instabilidade política da República Velha e do descontentamento de algumas classes da população com a chamada política do “café com leite”.

A capital paulista foi escolhida como alvo da revolta por seu papel central na economia do país e o controle de diversas e prósperas regiões articuladas à cidade pela rede ferroviária. Dentre as táticas empregadas pelos rebeldes, foi realizado o ataque e posterior ocupação do Palácio dos Campos Elíseos, sede do governo do Estado de São Paulo, forçando o presidente Carlos de Campos, acompanhado de secretários e oficiais do Exército legalistas, a se retirar para o bairro Guaiaúna, ponto terminal de trens que chegavam do Rio de Janeiro e do Vale do Paraíba, instalando a sede do governo provisoriamente no interior da estação ferroviária. Em resposta, o governo federal exerceu forte pressão bélica, com ataques aéreos na cidade contra os revoltosos.

São Paulo, uma cidade em desenvolvimento, se viu transformada em uma praça de guerra, em meio a tiros e bombardeios. Os paulistanos sofreram com a interrupção dos serviços básicos. A Light, uma empresa atuante na cidade desde 1899, responsável pelo fornecimento de energia, o transporte urbano (bondes), a iluminação pública, o telefone e o gás, não passou intocada em meio à revolta armada, com suas atividades gravemente afetadas, não apenas durante os 23 dias de duração, mas ao longo do ano, devido às destruições causadas no levante. A empresa lidou com ocupações em suas propriedades dos dois lados da batalha, sendo que a Garagem da Vila Mariana foi tomada pelos legalistas e transformada em posto de comando, alojamento e até prisão; o depósito de bondes da praça Teodoro de Carvalho foi ocupada por revoltosos; e a Subestação Paula Souza, responsável pelo fornecimento de energia elétrica à grande parte da cidade, inicialmente ocupada pelos legalistas, foi, no dia 9 de julho, tomada pelos rebeldes, que interromperam o fornecimento de força e luz realizados pela subestação. No período, houve também o roubo de 2 milhões de bilhetes de bondes durante um dos saques, que foi comunicado com insistência ao público por meio de jornais.

Em meio às ocupações, bloqueios em linhas de transmissão de energia e na circulação de bondes, além de dificuldades na comunicação entre superiores e trabalhadores, a Light se esforçava para manter a normalidade de seus serviços, mas os intensos bombardeios a impediam. O cotidiano da empresa e da população foi profundamente afetado.

A derrota e retirada das tropas revoltosas da cidade ocorreu no dia 28 de julho. Parte do contingente se dirigiu para o interior do Estado e depois para o Paraná, onde se encontrou com outros grupos militares aliados, nas origens da Coluna Prestes, liderada por Luís Carlos Prestes.

A Revolta de 1924 deixou cicatrizes na cidade de São Paulo, como saldo de destruição de alguns bairros populares, 4 mil feridos e perda de cerca de mil vidas, entre elas de muitos operários que nem sabiam o motivo dos conflitos.

As pequenas revoltas e rebeliões que marcaram a história do Brasil são de extrema importância para o entendimento da evolução da política brasileira e seu modo de diálogo (ou não) com a parcela da população descontente. E o acervo da Fundação Energia e Saneamento, enquanto instituição de preservação do patrimônio da energia e do saneamento, é uma rica fonte para a história de São Paulo, desde os grandes eventos até as pequenas transformações cotidianas, com documentos como fotos, cartografia, recortes de jornais antigos e correspondências de autoridades.


Danieli Giovanini - Historiadora e Analista do Núcleo de Documentação e Pesquisa da Fundação Energia e Saneamento.

 


Pesquisadores interessados na documentação podem entrar em contato pelo e-mail: pesquisa@energiaesaneamento.org.br

Para adquirir as publicações históricas da Fundação Energia e Saneamento de São Paulo clique no botão  obras   que leva ao site onde verá as obras.

Personagem Juca Pato, do jornal Folha da Manhã, apresentava as demandas e frustrações do paulistano e fez sucesso nos anos 1920, 30 e 40. Imagem: Acervo FES

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