Especialistas defendem avaliação individualizada e apontam o impacto de novas técnicas e medicamentos na ampliação do acesso de idosos a procedimentos de alta complexidade.


No dia em que completou 80 anos, o empresário Francisco Simeão tornou-se o paciente mais idoso do Paraná a receber um transplante renal. O caso representa a quebra de um antigo paradigma da medicina, que por décadas impôs restrições severas a esse tipo de procedimento com base estritamente na idade cronológica. O novo rim, doado por sua irmã de 73 anos, foi transplantado após sete meses de sessões de diálise, período em que o paciente apresentava apenas 9% da função renal ativa.

A história de Simeão reflete uma tendência nacional consolidada nos balanços da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO). Os dados apontam que, logo no primeiro semestre de 2025, o Brasil realizou 3.236 transplantes renais, sendo que 22,5% do total dos procedimentos foram executados em pacientes com mais de 60 anos, evidenciando o novo perfil dos receptores no país.

Da idade cronológica à avaliação da fragilidade biológica

Realizado no Hospital São Marcelino Champagnat, em Curitiba, o procedimento marcou também o primeiro transplante intervivos da instituição. O médico nefrologista Rafael Piné, responsável pela cirurgia, explica que a avaliação da fragilidade biológica hoje se sobrepõe à certidão de nascimento. No passado, a combinação entre diretrizes rigorosas e a escassez de órgãos limitava o acesso de pessoas com mais de 70 anos devido a análises baseadas primariamente na expectativa de vida estimada.

Atualmente, o cenário mudou e a idade isolada não funciona mais como critério de exclusão. A indicação médica passou a ser feita de forma individualizada, considerando as condições funcionais e clínicas gerais do paciente. Se o indivíduo apresenta um coração forte, cognição preservada e suporte familiar adequado, o transplante restabelece a qualidade de vida. Esse avanço é impulsionado por técnicas cirúrgicas menos invasivas e imunossupressores modernos que reduzem drasticamente o risco de complicações em octogenários.

 

Francisco Simeão, de 80 anos, ao lado da esposa, das irmãs e do médico responsável pela cirurgia realizada no Hospital São Marcelino Champagnat, em Curitiba. Foto: HSMC

 

Vitalidade e o impacto do transplante entre familiares

A rotina de Francisco Simeão atesta a transformação no perfil da terceira idade, já que o empresário mantém uma atividade profissional intensa e enxerga no procedimento a oportunidade de dar sequência aos seus projetos de legado. Para ele, enfrentar a diálise foi um grande desafio, mas o recebimento do órgão representou uma nova chance de continuar produzindo, provando que a idade se tornou um detalhe secundário diante da vontade de viver.

O ato de doação partiu de sua irmã mais nova, a médica pediatra Beth Casimiro. Ela encarou a cirurgia como uma retribuição e um presente inusitado para a data de aniversário do irmão, que sempre foi considerado o alicerce da família. O caso de sucesso serve de estímulo para a sociedade e para a comunidade médica, demonstrando que o avanço da idade, por si só, não deve ser um impeditivo para a renovação da saúde e da autonomia.


Destaque – Francisco Simeão, de 80 anos, ao lado da esposa, das irmãs e do médico responsável pela cirurgia realizada no Hospital São Marcelino Champagnat, em Curitiba. Foto: HSMC


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