Rosana Valle — Deputada federal pelo PL-SP, em segundo mandato; presidente da Executiva Estadual do PL Mulher de São Paulo; jornalista por formação há mais de 25 anos; e autora dos livros “Rota do Sol 1 e 2”.


O presidente da República Federativa do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), voltou a falar em soberania nacional, nos últimos dias, a fim de criticar a ação dos Estados Unidos na Venezuela – o que culminou na captura do chefe daquela nação, Nicolás Maduro (Partido Socialista Unido da Venezuela), e de sua esposa, Cilia Flores. Segunda o petista, “houve violação do Direito Internacional” e que, desta forma, “a autonomia dos países precisa ser respeitada, ao passo em que o mundo”, ainda de acordo com ele, “não pode aceitar a imposição da lei do mais forte”. Trata-se de discurso conhecido, repetido há décadas pelo PT e que explica porque o Brasil, sob governos petistas, costuma ficar do lado errado da História.


A soberania não é valor absoluto. Nunca foi. Ela existe para proteger povos, não para blindar regimes que esmagam seus próprios cidadãos. Quando um governo transforma o Estado em instrumento de repressão, destrói instituições, frauda eleições, persegue opositores, empurra milhões para o exílio e submete quem fica à fome e ao medo, esvaziando qualquer autoridade moral para se exigir respeito internacional.

A Venezuela não vive em meio à divergência ideológica – é palco, não de hoje, de uma tragédia humanitária. Reduzir isso a um debate geopolítico ou a um conflito entre potências é confortável para quem observa de longe, mas cruel para quem sente o colapso na pele – sem direito a mais pálida ideia de uma segunda opção.

A Esquerda latino-americana, incluindo o PT, porém, escolheu esquecer de ouvir a voz dos venezuelanos; dos milhões de cidadãos que foram obrigados a deixar aquele país por conta de miséria, de perseguição política, de exílio forçado, de torturas e de fraudes sistemáticas nas urnas.

Ao meu ver, o discurso de Lula revela um problema ainda mais profundo do PT: a preferência constante por abstrações ideológicas em detrimento do real. O partido que hoje governa o Brasil fala em princípios. Todavia, ignora consequências. Defende conceitos, mas fecha os olhos para o sofrimento concreto. Invoca o Direito Internacional como escudo retórico. No entanto, esquece que leis foram criadas para proteger seres humanos, não ditadores.

Outro argumento recorrente é o de que qualquer ação externa estaria contaminada por interesses econômicos. É uma crítica fácil e, convenhamos, intelectualmente preguiçosa.

Quando um governo ataca, recorrentemente, o próprio povo, ele perde o direito de questionar os motivos de quem tenta pôr fim a tal sofrimento. Mesmo ações imperfeitas podem se tornar moralmente necessárias quando a alternativa concreta é a perpetuação da miséria, da repressão e da ausência total de liberdade – o que, diga-se de passagem, acontece de maneira galopante na Venezuela.

A posição de Lula também escancara o distanciamento do PT em relação ao que pensam os brasileiros. O cidadão entende que nenhum governo tem o direito de destruir seu próprio povo, de colocá-lo em repressão, em nome de ideologia. Nenhum.

O Brasil poderia ter uma postura firme, equilibrada e moralmente responsável no cenário internacional, mas o PT nunca fez isso. O petismo prefere o discurso que valoriza a retórica que agrada aliados ideológicos, mesmo que contrarie o sentimento da maioria dos brasileiros. Opta, assim, por preservar narrativas, não vidas.

Soberania não pode ser desculpa para cegueira moral. E o Brasil não pode continuar sendo governado por uma visão de mundo que normaliza o autoritarismo alheio.


Destaque – Enquanto tem brasileiro achando ruim, o povo venezuelano comemora em todo mundo!!! / Reprodução / Redes Sociais


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