Rosana Valle — Deputada Federal (PL-SP), em segundo mandato; presidente da Executiva Estadual do PL Mulher de São Paulo; jornalista por formação há mais de 25 anos; e autora dos livros “Rota do Sol 1 e 2”.


A democracia tem ritos, regras e limites que não podem ser ultrapassados toda vez que o governo federal não gosta de um resultado. Porém, o que estamos presenciando, nos últimos dias, é mais um exemplo daquilo que, infelizmente, está se tornando padrão. Ou seja: quando a gestão do presidente da República Federativa do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), não consegue impor sua vontade no Parlamento, recorre ao Supremo Tribunal Federal (STF) para tentar reverter o que foi decidido, legitimamente, no voto, na Casa de Leis. Esse é o típico comportamento de quem quer ganhar na marra, na base do “tapetão”.


O assunto da vez é o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF). Isso porque, no último dia 25, a Câmara dos Deputados aprovou, com 383 votos favoráveis, o Projeto de Decreto Legislativo (PDL) que susta o aumento do tributo em tela. A alta na taxação, pretendida pelo Ministério da Fazenda petista, veio sem debate, nem transparência. E, o pior: atinge diretamente o bolso de quem trabalha, investe ou empreende.

A resposta à derrota? Recorrer ao STF. Aliás, uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) já foi protocolada pelo PSOL — partido da base aliada — e caiu nas mãos do ministro Gilmar Mendes, que pretende entregá-la ao ministro Alexandre de Moraes, conforme solicitação do partido de centro-esquerda. Existe, inclusive, um pedido para derrubar liminarmente o PDL aprovado pelo Congresso. O argumento central? Que o Poder Legislativo violou o equilíbrio fiscal ao desfazer, por decreto, um aumento de arrecadação imposto pelo Executivo. Mas essa arrecadação só existe porque o próprio governo federal aumentou o IOF por decreto — de forma ilegal, inconstitucional, e contrariando a natureza original do imposto, que é regulatória, e não arrecadatória.

Esse tipo de postura já não surpreende. Afinal, quando a decisão política escapa do controle, a reação da gestão lulista é quase que automática: acionar o Judiciário. Parece que o voto da maioria dos deputados vale menos do que a vontade do Planalto.

Ao meu ver, esse comportamento revela algo mais profundo: uma dificuldade real de lidar com o contraditório. Em vez de construir pontes, Lula prefere criar embates e apostar no confronto. Em vez de respeitar o Parlamento, tenta deslegitimá-lo. Quando perde, não tenta convencer — prefere judicializar. Quando é contrariado, quer invalidar. Típico de gente mimada!

O STF tem papel relevante, mas não pode ser acionado toda vez que o Poder Executivo sofre uma derrota política. É para isso, afinal, que serve a Câmara dos Deputados e o Senado Federal — para discutir, votar e decidir, democraticamente, os rumos do Brasil. Judicializar uma decisão do Parlamento é desrespeitar a separação entre os Poderes Constituídos e desprezar a vontade dos cidadãos que nos colocaram aqui, pelo sufrágio. Enquanto isso, o povo continua sofrendo com juros altos, crédito caro e o custo de vida que não para de subir. O poder de compra está, não de hoje, indo ladeira abaixo.

O brasileiro comum não quer saber de disputa entre os Poderes. Ele quer, sim, soluções. E o que o governo federal oferece? Mais arrecadação, sem cortar gastos, nem rever prioridades, ou fazer o dever de casa. As vultuosas viagens — incluindo as da primeira-dama da República — continuam de vento em popa, por exemplo.

Não se governa uma nação judicializando derrota. Não se constrói confiança com manobras. E não se respeita a Democracia tentando anular, por vias paralelas, o que foi decidido nas urnas e em Plenário. Ao meu juízo, o Brasil precisa de equilíbrio e, acima de tudo, de respeito às regras do jogo — mesmo quando o placar não agrada.


Leia outras matérias desta editoria

PL da Misoginia: quando o ódio às mulheres deixa de ser opinião e se torna crime

A recente decisão da Câmara dos Deputados, em Brasília-DF, de submeter o Projeto de Lei (PL) da Misoginia (896/2023) a regime de urgência, reconfigura, em termos simbólicos e normativos, o lugar da violência de gênero no Direito Penal brasileiro. Ao...

Quando o golpe usa o próprio sistema de Justiça

Fraude que se vale de dados reais expõe falhas institucionais e exige resposta conjunta de tribunais, bancos, plataformas e advocacia. Um golpe silencioso, sofisticado e cada vez mais frequente vem se espalhando pelo país: o golpe do falso advogado....

Copa do Mundo: a camisa da Seleção pesou menos do que deveria

O futebol sempre foi muito mais do que um esporte para o Brasil. Durante décadas, vestir a camisa da Seleção significou representar a história de um povo, carregar a esperança de milhões de brasileiros e defender um símbolo que ultrapassava os 90 minutos...

Caso Mariana Ferrer: quando o sistema que deveria ser escudo se comporta como espada

Destinada ao Brasil e tornada pública no último dia 3, a allegation letter (Carta Formal de Alegação) elaborada pelo Alto Comissariado dos Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre possíveis violações processuais no caso Mariana Ferrer...

A burocracia como vantagem estratégica

Apesar do grande volume de recursos públicos disponíveis para empresas no Brasil — apenas em 2024, o sistema de fomento brasileiro disponibilizou quase R$ 1,3 trilhão para financiar o setor produtivo — a burocracia continua sendo um dos principais entraves...

Doenças raras: a lentidão do sistema X a urgência em transformar política pública em lei

A Organização Mundial de Saúde (OMS) estima que existem 15 milhões de brasileiros que convivem com algum tipo de doença. O número, altamente expressivo, foi divulgado durante o 11º Cenário das Doenças Raras no Brasil, promovido pela Casa Hunter, em 8/6, em...

Solidariedade para aquecer o inverno

O “1º Censo Nacional da População em Situação de Rua”, realizado neste ano pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), com levantamento feito a partir de dados do Cadastro Único (CadÚNico), sistema do Governo Federal que identifica e...