Favela do cimento desaparece sob cinzas


Domingo | 24 de março, 2019 | 15h23


A cidade cresceu desordenada e hoje experimenta as consequências. Recebe tanta gente, cheia de esperanças, mas não sabe o que fazer. A lentidão para resolver o assunto da ocupação na Rua Pires do Rio ao lado do Viaduto Bresser e Radial Leste é que levou ao caos visto neste sábado.

Gerson Soares

A maior cidade da América Latina é um aglomerado de pessoas que se dividem em diversos nichos, se assim podemos chamar as condições em que se subdividem as camadas da sociedade que habita a desordenada São Paulo. Fundada há 465 anos foi crescendo e não para de se expandir até hoje, numa ascensão admirável, impiedosa.

Neste sábado, mais uma vez o pânico e a surpresa tomaram conta dos motoristas e transeuntes que precisam estar diariamente no entorno do Viaduto Bresser e Radial Leste, uma das mais movimentadas vias de São Paulo. O segundo incêndio, que desta vez destruiu completamente os barracos existentes na chamada favela do cimento ou comunidade do asfalto, assustou a todos.

 

Favela do cimento: incêndio e destruição na Radial Leste com Viaduto Bresser. Imagem que circulou pelas redes sociais, em amplo panorama visto antes do Viaduto do Belém. Foto: divulgação / redes sociais

 

A favela do cimento começou a se formar em 2013 e já surpreendia com a rapidez com que os barracos iam se agrupando. Em 2015, já tinha proporções significativas e em 2017 chamava a atenção dos motoristas que precisavam acessar a Rua Pires do Rio. Os roubos nos pontos de ônibus existentes nos dois lados da Radial Leste eram constantes. Pessoas se drogavam na Praça Vicente Matheus (confluência da Rua Bresser e Avenida Alcântara Machado) e quem quisesse passar por ali ficava sujeito aos mais diversos constrangimentos, apesar de existir um Batalhão da Polícia Militar muito próximo.

Esse fato, não diminuía o medo dos pedestres e motoristas que são obrigados a parar no semáforo. Ameaças às pessoas que se dirigiam ao metrô e terminal Bresser eram constantes. A série de incidentes diários no local apavorava os trabalhadores e estudantes de quatro grandes instituições que existem bem ao lado da agora destruída favela: Instituto Brasileiro de Controle do Câncer (IBCC), Hospital Salvalus, Escola e Faculdade Senai Theobaldo De Nigris e a própria Subprefeitura Mooca.

Um pouco mais longe, mas nem um pouco distante dos problemas causados pela ocupação está a Universidade São Judas Tadeu - Mooca. É possível imaginar quantos alunos precisavam atravessar o caminho até a estação e terminal Bresser/Mooca para acessar metrô e ônibus todos os dias, assim como as inúmeras outras pessoas em atividades no comércio e indústria locais.

Pessoas ameaçadas acusavam os ocupantes da favela

Portanto, quando se fala na reintegração de posse, determinada pela juíza Maria Gabriela Pavlopoulos Spaolonzi, do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, marcada para este domingo (24), devemos lembrar não somente da segurança dos ex-moradores da favela do cimento, mas também daqueles que se sentiam acuados. O direito de ir e vir lhes foram cerceados durante anos a fio, sofrendo ameaças e roubos com armas brancas até que a Justiça tomasse as devidas providências.

As causas do incêndio ainda não são conhecidas, mas militares diziam (ontem, 23) que os barracos foram incendiados propositalmente, fato que ainda está sendo apurado. As tratativas para a desocupação pacífica já haviam sido relatadas em entrevista com o ex-subprefeito Paulo Sérgio Criscuolo, desde o dia 30 de agosto de 2017, pela nossa reportagem. Em 17 de dezembro do mesmo ano, apontávamos a expansão mais rápida dos barracos, que chegaram até a esquina da Rua Pires do Rio com a Radial Leste. Naquele momento foi detectado o real perigo de atropelamentos.

 


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Para ter uma ideia do impacto causado com essa ocupação, além dos fatos já citados, o Posto de Gasolina existente bem ao lado de um ponto de ônibus fechou e abriu algumas vezes durante o tempo em que os barracos foram se avolumando. Na pista de atendimento do posto era possível ver as famílias habitando, nesses períodos alternados entre o fechamento e reabertura daquele tradicional posto de abastecimento.

“Pegar o ônibus às 18h no ponto em frente ao IBCC, ou atravessar a Radial Leste para chegar até o terminal e estação Bresser passando embaixo do Viaduto Bresser, por volta das 22h ao sair da escola e até antes, seria uma boa experiência para que os administradores da cidade entendessem o que está se formando ali e o medo que isso acarreta a homens e mulheres, jovens e moças.” Estas observações foram assinaladas após reportagem no local no final de 2017.

Desocupação

A lentidão para resolver o assunto, logo no início, é que levou ao caos visto neste sábado. O objetivo da Prefeitura, segundo os órgãos envolvidos na remoção dos moradores era que tudo ocorresse de forma pacífica e tranquila. “Estávamos trabalhando nesta operação (da retirada da comunidade) há meses. Durante toda a última semana estavam sendo realizadas audiências de conciliação”, afirmou o secretário de Assistência e Desenvolvimento Social do governo municipal, José Antonio de Almeida Castro a Felipe Resk, repórter do Estadão.

Na verdade, foram anos. Segundo Castro, o objetivo era evitar uma tragédia, o que de certo modo foi possível. Mas não para as pessoas que acumularam seus únicos bens ali, tais como, geladeiras, fogões, comida e o pouco que tinham. O acúmulo de barracos e a movimentação dos moradores já avançavam sobre uma das pistas da Rua Pires de Rio e o que os separava dos carros eram cones de sinalização. O desfecho da desocupação, em meio às cinzas recolhidas pelos tratores, facilitou o trabalho da Prefeitura e demais órgãos encarregados da reintegração de posse daquela área ao município.

De acordo com o governo municipal, a favela do cimento abrigava em torno de 215 pessoas – 66 crianças. Um número menor do que o aparentado. Feito o trabalho possível de acomodação em abrigos, fornecimento de passagens rodoviárias e guarda de utensílios, conforme relatado pelo município, paira de um lado o alívio e de outro a agonia. A grande cidade continua sua saga cosmopolitana desafiando a tudo e a todos que a habitam.

Invalidez, aposentadoria e morte são as preocupações do advogado que pode se estender a outros juristas que aderiram há muitos anos à Carteira dos Advogados do IPESP. Foto ilustrativa: Freeimages/linusb4

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