Livro narra desafios do combate à febre amarela


Segunda-feira | 11 de fevereiro, 2019 | 20h13


O ano mal começou e novas mortes por febre amarela foram confirmadas no Estado de São Paulo. Os casos da doença vêm na esteira da epidemia que chegou em 2016, surpreendendo as autoridades sanitárias com casos em regiões onde nem sequer havia recomendação de vacinação.

André Julião | Agência FAPESP

O trabalho das equipes da Secretaria de Estado da Saúde (SES-SP), principalmente do Centro de Vigilância Epidemiológica Prof. Alexandre Vranjac (CVE) e do Centro de Controle de Doenças (CCD), durante a epidemia e a história da doença são o tema do livro O Combate à Febre Amarela no Estado de São Paulo: história, desafios e inovações, do jornalista Carlos Henrique Fioravanti.

A obra retrata as inovações surgidas da epidemia, que obrigou os profissionais a repensar a forma de controlar a dispersão do vírus e o tratamento dos pacientes graves.

 

Obra conta história da doença e de como equipes da Secretaria de Estado da Saúde inovaram ao lidar com a epidemia que acometeu São Paulo entre 2016 e 2018 (foto: Divulgação)

 

“A epidemia trouxe uma nova perspectiva na virologia e na forma de tratar a doença”, disse Regiane de Paula, diretora do CVE. Uma delas foi o uso de georreferenciamento, marcando a localização e a data de morte dos macacos, para prever a direção e a velocidade que o vírus se espalhava pelo Estado, onde entrou ainda em 2016 em sua forma silvestre. A forma urbana não existe no Brasil desde 1942.

Diferentemente do protocolo até então, em que a vacinação só começava depois dos primeiros casos em humanos, a população começou a ser vacinada ainda quando os primeiros macacos tiveram a morte pelo vírus confirmada.

“Vimos que o vírus se movia até três quilômetros por dia e estava chegando a uma área bastante populosa, que é a Grande São Paulo, com 12 milhões de pessoas. Então começamos a fazer campanhas de vacinação onde prevíamos que ele fosse chegar”, disse De Paula.

“Se fôssemos esperar aparecer casos em pessoas para começar a vacinar, haveria muito mais mortes”, disse Marcos Boulos, coordenador de Controle de Doenças da SES-SP e professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP).

Quando o vírus chegou ao distrito de Anhanguera, 100% da população estava vacinada. Tanto que houve mortes de macacos, mas nenhuma de humanos. Em Mairiporã, 85% da população foi vacinada. Mesmo assim, um grande número de casos e mortes acometeu o município, que chegou a decretar estado de calamidade pública.

“Não conseguimos vacinar todos em Mairiporã porque é uma área de ocupação das matas, com difícil acesso. Há lugares bastante isolados, como o bairro Barro Preto, em que a população quase não sai e onde as equipes não conseguem chegar. Por isso houve ainda tantos casos”, disse Boulos à Agência FAPESP.

Além da nova forma de evitar que o vírus se espalhasse, o livro mostra como as equipes se prepararam para lidar com os doentes graves. Embora o transplante de fígado seja o procedimento padrão para falência hepática, foi definido que os pacientes com febre amarela deveriam passar na frente da fila de transplante, dado o risco de morte.

Durante a epidemia foi realizado o primeiro transplante de fígado em um paciente de febre amarela no mundo.

O trabalho foi reconhecido pela Organização Panamericana de Saúde (Opas), que colaborou com recursos durante a epidemia e patrocinou a produção do livro. Boulos foi recentemente ao Senegal a convite da Opas para apresentar os dados obtidos no Brasil e contribuir para a compreensão do vírus na África.

Fioravanti teve contato com o assunto quando produziu duas reportagens para a revista Pesquisa FAPESP. Uma delas foi a capa da edição de janeiro de 2018 e a outra foi publicada no mês seguinte.

“A nossa memória é muito curta. No trabalho com saúde pública, o tempo todo estamos correndo atrás do prejuízo, para fazer o máximo que podemos pela população. Um registro como esse é fundamental, porque as doenças não acabam, elas continuam por aí”, disse Boulos.

Uma prova é que o vírus segue matando, como lembra Regiane de Paula. “Ainda tem muita gente para ser vacinada. Nessa época do ano, com mais chuva e calor, o mosquito viaja mais rápido. Vencemos a batalha, mas não vencemos a guerra”, disse.


O livro tem projeto gráfico de Hélio de Almeida e Thereza Almeida e está disponível gratuitamente para download em http://www.saude.sp.gov.br/resources/ccd/noticias/cve/febre_amarela_miolo_web.pdf.

IPTU 2019: mais um susto no bolso do cidadão contribuinte paulistano. Imagem: aloart

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