“Rés pública” = coisa pública = República


Segunda-feira | 25 de janeiro, 2021 | 11h34


O artigo a seguir faz parte da homenagem a um grande homem, querido por sua família, pelos filhos e amigos. Se tivesse nascido em outra época, como na efervescência dos liberais e dos republicanos que libertaram os escravos e proclamaram a República, talvez estivéssemos estudando suas ideias nos bancos universitários. Entretanto, nestes tempos de globalização, suas palavras e a experiência de quem sabe se adequar ao tempo e lugar, estão muito mais vivas àqueles que com ele tiveram a oportunidade do convívio.

“Rés pública” = coisa pública = República

(Revista Alô Tatuapé nº 30 – 15 de Novembro de 1999, p.7)

Por Diamantino Alfredo Gomes (in memoriam)


Nestas últimas semanas, temos visto cenas que até há pouco tempo eram impensáveis na prática. São tubarões, bagrinhos e famílias inteiras de bandidos que entraram nas polícias sendo algemados e levados presos. Logo após, notícias de descobertas de políticos, juízes, advogados e empresários envolvidos em tramoias mirabolantes que é de se perguntar: Como é que só agora as autoridades tomaram conhecimento de tanta sujeira, tão aparente?!

Gangsteres travestidos de empreendedores, alguns conhecidos, outros nem tanto, cujas assessorias de imprensa até então conseguiam passar uma imagem de “hábeis formadores de fortunas”, baseadas em suas inteligências e muito trabalho, estão mostrando que suas reais habilidades estavam muito mais voltadas ao crime ou contravenção do que para a produção, e atrás de algum político ou autoridades locais usam o negócio lícito como biombo, ou ainda lavandeira de dinheiro sujo que entra pelas portas dos fundos de seus negócios. Negócios esses, que às vezes também se escondem atrás de entidades comunitárias, que se apresentam como beneficentes, mas que se beneficiam muito mais do que beneficia à comunidade a que se propõe beneficiar.

Isso tudo, sem falar das verdadeiras quadrilhas encalacradas nos Três Poderes da República, com ou sem concurso, sugando o que ela tem e o que não tem.

Imagine o leitor, quanto rolam em seus túmulos, Deodoro da Fonseca, Benjamim Constant e Rui Barbosa neste 15 de novembro, ao lembrarem que trocaram o Império pela República, em parte, para se livrarem disso tudo.

 

Benjamin Constant e Rui Barbosa: Le Monde Illustré: journal hebdomadaire, nº 1.705, 30/11/1889 e nº 1.708, 21/12/1889, respectivamente. Imagens via Wikipédia.

 

Visto de longe por nós, parece que trocaram não seis por meia dúzia, como se diz popularmente, mas sim seis por cinco, pois sentindo na carne e no nariz, o estado das coisas, parece que não daria para ser pior. O setor produtivo e o religioso, alguns podem até dizer que só entraram na briga, pois tinham interesses mesquinhos e algumas pinimbas com o imperador e queriam a troca da forma de governo.

Já o setor militar, que hoje é olhado com desconfiança, sem valorizarmos sua importante atuação histórica, entrou acreditando que conforme preconizava Cícero e Santo Agostinho, a República significaria a busca do interesse comum, baseada numa Constituição e, como diria Kant, em harmonia com os direitos naturais, colocando acima dos interesses do Estado, os interesses da Nação. Em outras palavras, os interesses do povo.

Imagine caro leitor, se pelo menos os três citados Deodoro, Constant e Rui Barbosa, vissem os noticiários das últimas semanas! O que eles pensariam?

Rui Barbosa, coitado, ainda teria que ver passar o dia 5 de novembro, dia da cultura em sua homenagem, com um senador baiano que sem compostura e cultura para exercer o cargo, não perde a oportunidade para bancar o “coronelzão”, em cima dos “capachos” interesseiros, pouco ligando para as divisões entre os poderes e a real democracia que tanto Rui defendeu.

Quando vissem as rebeliões nas penitenciárias e na Febem notariam que apesar dos jornais dizerem que o maior número de presos e internos é de brancos, as cenas mostrariam que o que houve foi uma maior miscigenação, que a questão escravo não foi bem resolvida como se pensou na época e, ainda, que nós brancos continuamos a tratar os negros e nossos descendentes (nossos sim, pois os mestiços tanto são descendentes de brancos quanto de negros) como uma casta longe dos bons salários em geral e as exceções parecem servir só para passar a impressão que somos uma sociedade em condições de igualdade e o que é pior, eles é que são acomodados.

Somente ficariam mais sossegados quando disséssemos a eles que o pior já passou e que antes a zorra era muito parecida, só não mostrava que chegamos a este estado por conta apenas destes últimos anos.

Poderíamos ainda informar que apesar das distorções da mídia, muitas vezes querendo ser “mais realista que a realidade”, captando traços folclóricos de uma notícia e generalizando como se fossem representativos dos fatos em si, ou ainda colocando-se a serviço de algum poderoso local, ou do lado do senso comum, para simplesmente reforçarem aquilo que as pessoas acreditam independente dos fatos e da verdade, muitas pessoas do meio já perceberam que informar e informar com precisão a longo prazo, rende mais e exercita a profissão dando competência e autoridade.

Caro leitor, se você acredita que tudo isso está longe de atingir sua família, se desespere, tudo o que acontece nos noticiários, acontece em menor ou maior escala aqui no Tatuapé. Fique atento para podermos cumprir o que propõem os dizeres de outra comemorada deste mês, nossa Bandeira Nacional, Ordem e Progresso. Só se consegue ordem e progresso com a sua participação, veja como você pode contribuir.

Feliz dia 19 de novembro.


Diamantino Alfredo Gomes (in memoriam) – Advogado, Psicólogo, Administrador e Professor de Desenvolvimento da Comunicação Humana.
Entre outros cargos e funções, foi Superintendente da Associação Comercial de São Paulo - Distrital Tatuapé e Conselheiro da sede central; Presidente do Conselho de Segurança do Tatuapé (Conseg Tatuapé - 30º DP e 1ª Cia do 8º BPM/M); Coordenador do Grupo Viva Vida da 3ª Idade (Igreja Nossa Senhora da Conceição - Praça Sílvio Romero), ocupou diversos cargos no Rotary Tatuapé.

No Alô Tatuapé, os anos 1997 a 2001, período importante do seu legado de sabedoria estará para sempre gravado na história. Neste artigo, sua escrita e indagações feitas há 21 anos, ainda são atuais. “Infelizmente”, diria pragmático.

“Tive o privilégio de compartilhar dos ensinamentos e empreender atividades de longo prazo ao lado do Diamantino em prol do Tatuapé e, por extensão, da cidade de São Paulo. Essas atividades exercemos voluntária e despojadamente.”

Gerson Soares
Jornalista, escritor, fundador do Alô São Paulo e Alô Tatuapé.

Lição de casa: Orientar é importante, mas não diga a resposta. Foto ilustrativa: Ignacio Leonardi / Getty Images

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